23 junho 2008

Lá vai um menino

Veio de lá dos brilhos das pedras e do sol da chapada diamantina, banhado nas as águas frias do Riacho do Mel, onde na tenra infância aprendeu a olhar a vida no brilho do sol que desvenda a profundeza das águas escuras de seu rio e aprendeu que a vida só pode ser vista com a luz que vem de cima.
Veio de lá dos brilhos das pedras de Itaberaba um menino com um pilão na cabeça carregada de perguntas: Para onde iremos? O que faremos? Porque meu pai chorou?
As respostas foram tragadas com o pé de cajá para desbotar os poucos dentes, com o colorido do pé de cajú, a escorregadia goiabeira, o pé de pinha, de mamão, de laranja, o andu, o mangalô... Enfumaçados no fogão à lenha pra comer o feijão com cortado de palma no largo quintal da vida.
Ta lá um menino com medo de rio, de doidos e de “curador”, sem saber que estava aprendendo a lidar com a vida que é vivida com alegrias e medos, com falas e segredos. Aprendeu também que quando o menino cresce o medo vira coragem, a inocência malícia e a simplicidade pecado.
Veio lá das pedras reluzentes e não da “areia quente” de onde poderia ter sido achado.
Menino que se perdeu debaixo da cama pra se esconder da dor e dos medos, mas só pra aprender que o dissabor da vida se vence prostrado aos pés da cruz.
Ta lá o menino homem chorando a morte da avó, da irmã...
Forçado pela vida a ser insensível!
Ta lá o menino homem com a bíblia na mão ouvindo conselhos de Zéu.
Educado aos pés de um Gamaliel chamado Júlio.
Descobrindo a vida e a razão de sua existência no exercício diaconal sob o olhar de um Luiz que não via um menino, enxergava um pastor.
Ta lá um menino homem engravatado pela religião!
Ta lá o menino homem instruído em provérbios por Oziel, mergulhado nas águas correntes do rio Paraguaçu, abraçado por uma mãe chamada Alzira, alvo de oração de Adélia e aprendiz de Elias...
Ta lá o menino homem sorrindo da vida com Esmeraldo que não vê, mas enxerga a vida e o conhece num simples toque.
E o menino homem se foi. Pródigo do lar para a cidade grande. Cercado de medos e acertos. Vítima da solidão, e da saudade de casa, do olhar missionário de Ely da paciência de Luiz... mas ainda carregado de sonhos pra vida.
O menino homem cresceu, amou vidas e se deu pelo brilho reluzente da pedra que brilha na escuridão da noite.
Sabe o que é dor, sabe amar, se entregar...
Silencia, chora, vive!
Ama a vida. Lamenta parte dela!
Mas continua carregado de sonhos pra vida.
Lá vai um homem das pedras reluzentes de sua terra natal para o mundo sabendo que para a pedra dá seu real brilho, precisa ser lapidada...
Lá vai um homem chamado eu.


Josenilton Pinheiro
"curador" era comprador de garrafas que levava um saco nas costas.
"areia quente" termo usado por minha irmã Conceição pra me tirar a paciência. Ela dizia que fui achado na areia quente...Risos...



2 comentários:

pekkenna disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Quem é realmente esse homem?
um poeta, um pastor, um sábio, um lider, um pai, um marido, um homem forte, um homem sensível, díficil decidir, escolher uma opção, porque todas elas descrevem a essência deste homem.Aquele que com sua simplicidade conquista a admiração de muitos, incluindo a minha. abraços meu pastor
De sua discípula Cris Veloso